O Pesquisador da Universidade do Estado da Califórnia, Dr. Joseph Greene, foi entrevistado pelo jornal Já - www.jornalja.com.br - quando esteve falando a empresários e acadêmicos gaúchos sobre as confusões existentes em torno da degradabilidade de plásticos. Como especialista na questão dos resíduos plásticos, Greene deixou claro que se opõe à idéia dos oxidegradáveis, materiais plásticos que facilmente se dispersam em aterros, dando a falsa impressão de solucionar o problema dos resíduos sólidos.
Confira a entrevista
AmbienteJÁ
– O Sr. pode falar sobre este projeto de acompanhamento da degradação
de diferentes tipos de plásticos em diferentes ambientes que o Sr.
desenvolveu na Universidade do Estado da Califórnia?
Joseph Greene – Sou
professor do curso de Engenharia Mecânica na Califórnia State
University, Chico. Por meio de uma demanda do Estado da Califórnia, na
pesquisa, buscamos formas de novas maneiras de degradação de plásticos,
como elas poderiam afetar a sociedade. E o melhor meio é conseguir a
remoção do composto. Assim, isto minimiza o efeito no solo, no ar e na
água.
AmbienteJÁ – O que o Sr. concluiu ao analisar diferentes tipos de plásticos?
Greene –
Perguntamos e buscamos saber o que significa ser degradável para
diferentes tipos de plásticos. Quais as opções que o Estado da
Califórnia tem, o que eles deveriam projetar e o que não deveriam
projetar. O que deveria ser feito com o plástico após o uso pelos
consumidores, para onde deveria ir este material? Este é o fato:
verificar se ele polui, que problemas custa para agricultores, para o
solo, ou para as cidades e suas águas. Existem toxinas nesses
plásticos? O que acontece se reciclarmos este material? Melhoraríamos
esses plásticos se reciclássemos os de polietileno com o
desenvolvimento de técnicas? Causaria problema se o plástico reciclado
assim com essas técnicas fosse utilizado por alguém, acidentalmente?
Foi isto que eu busquei esclarecer.
AmbienteJÁ – Qual a posição da Califórnia sobre os plásticos oxibiodegradáveis?
Greene – A
Califórnia quer que se ajude a entender o que significa ser
biodegradável, quais materiais são e quais não são biodegradáveis. E os
que podem causar mais problemas ambientais são os oxidegradáveis e que
se fragmentam mas não se biodegradam. Eles se fragmentam em pequenos
pedaços, causando muito mais problemas para a disposição e a coleta.
AmbienteJÁ – Há empresas vendendo a idéia de que o oxidegradável é melhor que o plástico comum?
Greene – Sim,
existem. É exatamente pior do que o polietileno regular. Porque o
polietileno não se quebra/rompe em aterros. Nada se desfragmenta em
aterros: cenouras, jornais, tomates, alface, cachorro-quente. Tudo isso
fica lacrado, selado.
AmbienteJÁ – E que solução existe para isto?
Greene – Boa
pergunta. Para ter um plástico verdadeiramente degradável, que chamamos
compostável, o que realmente significa ser realmente biodegradável? Há
um estado de alerta em todo o mundo, e isto significa que temos que ter
uma solução em termos de gerenciamento de resíduos… temos que ter um
plano para conseguir isto. Para plásticos renováveis, sim. Para
plásticos compostos, o plano é direcionar os compostos, não enviá-los
para aterros. Os plásticos compostos vão embora em seis meses, vão-se
completamente. O problema é o oxidegradável. Oxifragmentos não foram
planejados para disposição. Você não pode enviá-los para composto, nem
pode enviá-los para aterro.
AmbienteJÁ – Porque eles não podem ser recuperados…
Greene –
Eles não podem desaparecer. Talvez plásticos regulares levem mil anos,
talvez dez mil anos para desaparecer… o polietileno. Os oxidegradáveis
ficam em pequenos pedaços, e o público pensa em dez anos, mas eles
ainda serão polietileno e persistirão por mais mil anos. Eles são
apenas pequenos pedaços de polietileno que, infelizmente, persistem.
AmbienteJÁ – Estes plásticos oxidegradáveis contêm metais pesados?
Greene – Metais pesados estão presentes estão em pinturas e tintas, principalmente. Metais pesados não estão nos polietilenos.
AmbienteJÁ – Mas qual elemento ou substância leva à degradação desses plásticos chamados oxidegradáveis?
Greene – Eles têm cobalto também. Eles possuem um tipo de composto de cobalto, e este é um problema.
AmbienteJÁ – Como se gerencia a remoção deste cobalto?
Greene – É muito caro para fazer esta recuperação. Mas é possível remover o cobalto do solo.
AmbienteJÁ – Isto é geralmente feito?
Grene –
Não. O que eles fazem com o polietileno é aumentar a oxigenação e
cortar o material em pequenos pedaços. Assim, eles pensam que
desaparece, você pode ver e pensar que é ambientalmente melhor, mas
isto não é verdade porque é um pequeno problema agora. São pequenos
pedaços que se vão com o vento. Você não vê, pois esses pedaços se
espalham…
AmbienteJÁ – Então esta pretensa solução é muito pior…
Greene –
Exato. É muito pior porque ingressa na cadeia alimentar. Porque, em
pequenas porções, os animais podem ingerir esses plásticos. Peixes … e
nós comemos o peixe que ingeriu esses plásticos. Assim, pequenos
organismos podem morrer disto, ou em pequenas cadeias alimentares, ou
na cadeia alimentar mais ampla, o que é muito pior.
AmbienteJÁ – Que planos tem o governo da Califórnia para lidar com o problema dos plásticos degradáveis, oxi e biodegradáveis?
Greene – É
bastante confuso porque todos esses materiais são ofertados, mas eles
deveriam ser dispostos em locais corretos, como em San Francisco. Eles
incentivam os supermercados a banirem sacolas plásticas.
AmbienteJÁ – É um ordenamento legal?
Greene – Sim, em San Fancisco é. Os supermercados não podem dar pequenas sacolas para o consumidor.
AmbienteJÁ – E sobre problema dos plásticos oxidegradáveis, que planos tem o governo?
Greene –
Este tipo de material, no Estado da Califórnia, não é permitido em
prédios públicos, escritórios, universidades, escolas. Não podemos mais
comprar mais estes materiais.
AmbienteJÁ – Quanto percentualmente representam estes plásticos em relação ao total utilizado?
Greene –
É um pequeno percentual, muito pequeno. Você pode ver este tipo de
plástico em sacolas. Mas em San Francisco você pode trazer sua sacola
reutilizável. Você pode armazenar, levar para casa…se você reutiliza a
sacola, tudo bem.
AmbienteJÁ – Como as pessoas costumam se comportar com relação ao uso da sacola reciclável? Elas realmente dão atenção a isto?
Greene – A
maioria das pessoas quer fazer a coisa certa. Elas querem ajudar,
especialmente na Califórnia. Elas querem ajudar o meio ambiente. Mas
elas são confusas.
AmbienteJÁ – Quanto tempo leva para as pessoas mudarem sua mentalidade quanto ao uso de materiais mais adequados ambientalmente?
Greene –
Eu ouvi dizer, mas não sei exatamente sobre este tipo de estudo. Mas em
San Francisco, é muito bem sucedido, as pessoas estão usando sacolas de
materiais compostos por sua conta, elas recolhem, coletam… porque San
Francisco gera 70% dos resíduos que costuma ir para aterros. Setenta
por cento, agora, são recicláveis ou enviados para compostagem. Desta
forma, os consumidores estão indo muito bem em San Francisco. Está na
lei: na Califórnia, todas as agências governamentais, incluindo
escolas, têm que ter no mínimo 50 por cento [de reciclagem].
AmbienteJÁ – Existem penalidades para pessoas que não obedecem a esses parâmetros?
Greene – Não,
para pessoas não existem, mas para instituições. Agências
governamentais e escolas e algumas companhias podem ser multadas se
elas não apresentarem 50 por cento ou uma taxa maior de reciclagem ou
compostagem de resíduos.
AmbienteJÁ
– O Sr. acha que as companhias e instituições mudaram seu comportamento
por causa das multas, apenas, ou este é um comportamento natural delas,
que mudou ao longo do tempo?
Greene – Elas
mudaram, sim. Porque há muitas pessoas tentando fazer o melhor pelo
meio ambiente nos Estados Unidos. Elas querem ser mais verdes. Elas
estão tentando comover outros. E na Califórnia, é muito acentuada a
consciência ambiental.
AmbienteJÁ –
Na sua pesquisa, o Sr. mostrou que é muito difícil gerenciar até mesmo
plástico reciclável, porque este tipo de material permanece enterrado e
não se degrada, sem oxigênio, em ambiente anaeróbico. Como resolver
isto?
Greene – No aterro, nada se degrada. A solução é ter menos aterros.
AmbienteJÁ – A redução dos aterros está acontecendo?
Greene – Já demos início às reduções.
AmbienteJÁ – Se compararmos o volume que ia para aterro na Califórnia, há dez anos e hoje. Qual a percentagem de redução?
Greene –
É uma boa questão, eu não sei. É um bom ponto… a redução dos aterros.
Mas posso dizer que houve uma boa redução porque temos muitas
comunidades praticando esta redução. Mas não tenho dados sobre isto.
AmbienteJÁ – E se compararmos a Califórnia com outros estados norte-americanos. Como está a situação?
Greene – Há
estados indo muito bem, como Califórnia, Nova Jersey. Mas há outros
indo muito mal. Eles têm muito espaço para fazer aterros, é mais
barato. Eles jogam os resíduos, passam com um caminhão por cima, após
pagarem uma taxa, que na Califórnia é muito elevada. Mas não é tão
elevada em outros Estados, como, por exemplo, Kentucky, ou Utah. Em
grandes estados, com poucas pessoas, podem jogar os resíduos em
qualquer parte, pois ninguém vive ali, de qualquer forma… gastam,
talvez, apenas trinta dólares por tonelada de aterro.
AmbienteJÁ – E qual o papel da indústria do plástico na Califórnia? Como ela age?
Greene –
De fato, a Califórnia tem muitas fábricas de sacolas plásticas. Mas não
fabrica muita resina de plásticos. Porém, na Califórnia, fazemos as
sacolas, podemos comprá-las em shoppings. Eles estão de fato
trabalhando com organizações da área de sacolas plásticas em Califórnia
para ter produtos mais ambientalmente amigáveis. Existem planos para a
certificação. Os fabricantes de plásticos estão sendo incentivados a
ser mais recicladores, prover materiais mais recicláveis, a usar
materiais que sejam, por exemplo, 50% de polietileno e 50% de madeira.
Eles juntam esses materiais. Eles também não usam qualquer tipo de
metais nas tintas.
AmbienteJÁ – Os plásticos não têm nenhum timbre?
Greene – Nenhum.
Mas há uma certificação que funciona para nós mesmos, Environmentally
Preferred Rating (EPR), que assegura que se está usando material
reciclável, que não está se usando metais…a EPR não é uma agência
governamental, é uma agência comercial, é uma empresa do setor
plástico. Em vez de o governo nos dizer o que fazer, nós nos
organizamos e nos autopoliciamos.
AmbienteJÁ – E funciona bem?
Greene
– Sim, também ajuda as companhias quanto aos seus parâmetros em relação
à qualidade do ar, qualidade da água, à verificação de que as pessoas
estão descartando bem os produtos… que os seus resíduos vão para a
reciclagem…
AmbienteJÁ – A sua pesquisa inclui técnicas de incineração de plásticos?
Greene – Não, isto eu apenas leio em artigos.
AmbienteJÁ – O Sr.. acredita que se possa adotar o aproveitamento energético do plástico no Brasil?
Greene –
Acho que faz sentido, para o polietileno, é muito bom. É de bom senso
se você tem um clima adequado para isto, se se faz uma boa análise de
qualidade para o polietileno, ao final de seu uso, então você o recicla
ou o dispõe. Faz sentido queimá-lo em um incinerador tecnologicamente
adequado, de baixas emissões. Mas plásticos degradáveis não deveriam
ser reciclados, não deveriam ser queimados, deveriam ser colocados em
compostos, para a melhoria dos solos.
fonte: www.jornalja.com.br